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II Jornadas Internacionais de Cenografia & Figurinos // chamada de trabalhos
Jun 08 2026CHAMADA DE TRABALHOS > ATÉ 28 JUNHO 2026
A Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa e a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, a partir do CIEBA (Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes), convidam a comunidade académica, artistas e investigadores, a submeteram propostas de comunicação para a conferência internacional II Jornadas Internacionais de Cenografia & Figurinos.
Na continuação da sua primeira edição, as Jornadas pretendem ser um fórum de partilha de pensamento e discussão na área do design de cena. O design de cena – ou a cenografia e os figurinos – é um campo próprio e específico que, no entanto, existe na proximidade, ou até na intersecção, com as belas-artes, as artes performativas e a arquitectura, entre muitos outros saberes, alguns eminentemente técnicos. Maioritariamente, a sua afirmação tem-se feito na prática e são esses processos criativos e técnicos, herdeiros de uma tradição de artistas e mestres, que se procuram perspectivar na actualidade, quando a visualidade da cena se expandiu ao desenho da performance e à prática da instalação.
Interessa alargar as discussões sobre a prática, a história e a teoria do design de cena, permitindo a partilha entre geografias diversas; mas interessa, igualmente, pensar a prática portuguesa, pouco documentada e com necessidade de estudo e arquivo, e colocá-la em relação.
Nesta edição, para além das secções dedicadas a artistas e investigadores, convidam-se estudantes e artistas emergentes a participar numa secção especialmente dedicada à exploração e ensaio de ideias.
Aceitam-se propostas que abordem, entre outros, os seguintes tópicos:
História e teoria da cenografia e dos figurinos
Processos criativos
Estudo de casos
Ensino da cenografia e dos figurinos
Na secção “estudantes e artistas emergentes: 1 IDEIA + 1 IMAGEM”, propõem-se apresentações de cerca de 5 minutos, realizadas a partir do lançamento de uma ideia e de uma imagem.
1. Normas para Submissão
As propostas devem ser enviadas em formato PDF para o email jornadascenografiaefigurinos@gmail.com e devem incluir:
- Título da comunicação;
- Resumo (Abstract) de 300 a 500 palavras;
- Palavras-chave (3 a 5);
- Nota biográfica do autor (máx. 150 palavras);
- Filiação institucional e contactos.
São aceites submissões em português, inglês, espanhol, francês e italiano.
As apresentações orais devem ser realizadas em português ou inglês.
2. Calendário
Prazo limite para submissão: 28 de Junho
Notificação de aceitação: 31 de Julho
3. Publicação
Informa-se que uma seleção de artigos apresentados na conferência será publicada em livro de actas.
Prazo limite para a submissão de textos: 15 de Dezembro
São aceites textos em português, inglês, espanhol, francês e italiano, devendo sempre existir um resumo em língua inglesa.
A participação nas Jornadas implica a potencial publicação da investigação no livro de actas. A participação na conferência e a publicação estão, ambas, sujeitas a processos de revisão por pares.
Organização
Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA)
Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa (FBA-UL)
Escola Superior de Teatro e Cinema, Politécnico de Lisboa (ESTC-IPL)
Parceiros (em actualização)
Associação Portuguesa de Cenógrafos (APCEN) / Festival Alkantara
Coordenação Geral
Fernando Rosa Dias / João Calixto / Marta Cordeiro / Paulo Morais-Alexandre / Sara Franqueira / Susana Vidal
Comissão Científica (em actualização)
Ana Mira (ESTC/ IFILNOVA)
Armando Nascimento Rosa (ESTC-CIAC)
Fernando Rosa Dias (FBAUL / CIEBA)
Helder Maia (I2ADS / ESMAE)
Isis Saz Tejero (UCLM)
João Calixto (ESTC / CIEBA)
Jorge Palinhos (CECS)
José Capela (EAAD / Lab2PT)
Marta Cordeiro (ESTC / CIEBA)
Paulo Morais-Alexandre (ESTC / CIEBA)
Sara Franqueira (ESTC / CIEBA)
Susana Vidal (ESTC / CIEBA)
Teresa Projecto (IPLuso – UL / CIEBA)
Teresa Varela (ESTC / CIEBA)
Contactos
jornadascenografiaefigurinos@gmail.com
Revista Convocarte nº 20/21 – Arte e Povos Indígenas // chamada de trabalhos
Jun 08 2026CHAMADA DE TRABALHOS > ATÉ 26 JUNHO 2026
Prazos de submissão
26 de junho de 2026 – Entrega da proposta inicial (título, resumo e palavras-chave; máx. 1000 carateres s/ espaços) e link para currículo/portefólio.
9 de outubro de 2026 – Entrega do texto completo.
Envio – convocarte.belasartes@gmail.com
Manifesto para uma chamada de trabalhos: Arte e Povos Indígenas
Arte. A relação entre arte e povos indígenas não é de abordagem simples. Els Lagrou (2012), num texto programático para a antropologia da arte, em que mensura os impactos da obra de Alfred Gell (2018) na área, fala de uma relação de amor e ódio entre arte e antropologia. Desse modo, pode-se pensar que a conjunção “e” que conecta arte e povos indígena nesta chamada tem função antes adversativa que aditiva.
Povos indígenas. Coloca-se assim o primeiro problema desta chamada. Arte contra povos indígenas ou povos indígenas contra a arte? Comentando o debate de Manchester (Ingold, 1996) a respeito da “universalidade do conceito de estética/arte”, Lagrou (2012) coloca a pergunta: “existiria uma arte das sociedades contra o Estado?”. Ela faz referência à célebre expressão de Pierre Clastres (2003) que propõe caracterizar a organização política (ou cosmopolítica) dos povos indígenas da América como “sociedades contra o Estado”, em lugar da expressão evolucionista “sociedades sem Estado”.
Terra. Com isso, Clastres (Idem) desloca a questão de como definir “o que é” um povo indígena ou “quem são” os indígenas e a aproxima bem mais da realidade contemporânea em que mais do que peças de museu ecoando o passado de uma única “humanidade” separada definitivamente do cosmos, esses povos apontam para o futuro da política planetária.
Cosmofobia. Deleuze & Guattari (1976), desde o que Clastres (2003) e Lévi-Strauss (1976) haviam aprendido com os ameríndios, redefinem essas sociedades contra o Estado como formação social territorial, destacando a relação intrínseca desses povos com a terra, em contraste com o Estado moderno e sua origem/fundamento cosmofóbica, conforme definição de Nego Bispo (Santos, 2018).
Cosmopolítica. Se propõe a falar com povos indígenas, para além de falar de ou sobre povos indígenas, e que tais interlocutores se definem por sua relação intrínseca com a terra e essa relação orienta suas práticas de conhecimento, compreende-se que tais interlocutores são todos aqueles modos de existência que falam e fazem território através dessas comunidades e indivíduos humanos.
Antropoceno. Tanto quanto o pensamento moderno foi transfigurado pelo conceito-problema de Antropoceno, enterrando de vez o século XX com a percepção de que, por fim, “jamais havíamos sido modernos” e fazendo cumprir a persistente profecia de Lévi-Strauss (1976) de que o pensamento mitológico “voltaria a se encontrar” com o pensamento científico, também a arte contemporânea tem sido decisivamente afetada pelas obras-problemas colocadas pela arte indígena contemporânea.
Arte indígena contemporânea. Correndo todos os riscos prováveis e improváveis, instituições de arte e artistas indígenas reconfiguram o cenário da arte contemporânea. Articulando denúncia e procedimentos que atualizam as práticas de conhecimento indígenas, orientada pela inominável obra A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert (2015), a arte indígena contemporânea pode ser entendida como uma das primeiras expressões de um “pensamento antropocênico”. Isso porque, como sugeriu Dipesh Chakrabarty (2009), o Antropoceno, antes de ser algo que pudesse ser pensado pelo pensamento tal como o conhecemos, seria um conceito-problema que redefiniria os limites do pensável (e, portanto, do sensível) e a própria natureza do pensamento.
(Amilton Mattos)
Chamada de Trabalhos

A noção de «Arte», tal como hoje se conhece globalmente, é um recente paradigma ocidental. Depois da criação da ideia de Belas-Artes, com o processo do Renascimento, a consciência da arte e de autonomia da esfera artística é já devida ao século XVIII. Será que podemos falar de arte perante as culturas indígenas? Se há dimensões de artístico como se movem e entendem? Neste sentido, olhar a cultura de um Povo ou Nação indígena pode ser um confronto à própria ideia de «Arte» e aos seus confortos.
Qual o fundamento de produções artísticas inscritas no corpo e na paisagem, fundindo-se com eles, criando perturbações às artes da separação entre obra e sujeito, produção e recepção, etc.? Falar de cultura indígena e dos seus artefactos de dimensão artística pode servir de problematização às garantidas noções de «arte», «obra», «autor», etc..
As separações entre artes também se problematizam, visto que há um modo fundacional de relações e fusões entre artes, tradicionalmente separadas no Ocidente. Não se trata de híbrido, que resulta já de um princípio de separação e sua perturbação, mas algo que se funda na não separação. Assim, perante a cultura indígena são as ontologias ocidentais, das obras e dos processos relacionais, além dos valores e trocas simbólicas, entre outras, que se desassossegam. Encontrar essas zonas de inquietação, enquanto estados vacilantes, que interessam não só entender, mas confrontar, é uma das premissas desta chamada.
Qualquer tradição recente da Antropologia reconhece que estas culturas não são estanques numa repetição do mesmo, e que, pelo contrário, têm a transformação como centro, em que as práticas rituais de continuidade e sobrevivência cultural têm uma dinâmica própria interna. A repetição do ritual, enquanto prossecução cultural, é fundadora de processos de transformação e é mediante essa repetição que o mesmo e o «novo» se oferecem como prossecução e continuidade cultural.
Convocar a cultura indígena e assumir a própria autenticidade da sua diferença abre uma extensão relacional que relativiza, podendo servir de problematização ao dominante paradigma ocidental. Mais que um ataque a este paradigma dominante, interessa a recusa da sua exclusividade e da autoridade da sua voz, para abrir a escuta do outro a partir do seu lugar, onde os seus artefactos se libertem de vez do paradigma do gabinete de curiosidades que ainda remanescem nos museus etnográficos e antropológicos ocidentalizados. Abordar este tema passa pela procura de uma relação de alteridade enriquecedora, que exorte o vai e vem da diferença como extensão mútua, recusando o olhar unidirecional da curiosidade ou objecto científico, para uma relação equipara e dialogante, onde a experiência e a voz do outro tenha inscrição e seja partilhada.
Em geral, as culturas indígenas são de Memória e não de História, de oralidade e não de escrita. São os corpos que suportam e comportam as mediações culturais, que agregam as memórias e as transferem. A cultura como salvaguarda de si é muitas vezes feita a partir desses corpos, com responsabilidades de transferência e continuidade, que é sempre fatal mudança, mas inerente e genuína.
Quando se fala em povos indígenas, há uma natural propensão para estudos focados no eixo Sul global, tendendo a englobar a América central e sul, a África, a Austrália e grande parte do Pacífico, ou ainda partes de Indonésia ou Índia. Mas ela pode ser vista ainda noutros lugares, mesmo que de modo quase arqueológico, em torno de ecos de memórias indígenas massacradas, tal o grau de desaparição ou extinção cultural em vários casos, como no Canadá e, sobretudo, Estados Unidos.
Pensar o papel da arte e da cultura nos povos indígenas passa várias vezes pela sua resistência perante a violência colonial ocidental e global, no que tanto pode ser feito a partir da força da própria sobrevivência, do que muitas vezes são restos resilientes, como da sua regeneração, da sua recuperação de uma situação de quase extinção cultural, retomando autenticidades possíveis que não se reduzam a modos de negócio e neo-turismo exótico.
Outra questão é o problema da periferia nas questões culturais ou de política cultural. Não a periferia entre os grandes centros dominantes, que decidem os valores históricos, económicos e simbólicos da arte e da cultura, como a da arte portuguesa perante a de França, Londres ou os Estados Unidos, ou do Brasil perante a arte europeia e norte-americana, ou entre as artes orientais e as ocidentais ou as do Sul e as do Norte, nem sequer dos grandes centros perante as pequenas localidades, mas uma periferia mais radical: a periferia que toca o lugar da diferença obliterada e da sua sobrevivência. Uma periferia que já está muitas vezes de fora, numa espécie de alteridade total. Mas essa é a riqueza da sua voz.
Podemos assim avançar com alguns tópicos de abordagem, sempre com a ressalva que não circunscrevem todas as possibilidades de abordar o tema:
- Compreensão conceptual: As dimensões da noção de «indígena» e as suas especificidades culturais e artísticas.
- Lugares do Artístico: Estudo dos modos e espaços da produção artística nos povos indígenas.
- Identidade e Transmissão: Processos de subjetivação e diálogos culturais
- Alteridade e Relativização: O confronto de diferenças como via para o alargamento das possibilidades da cultura humana.
- Sobrevivência e Regeneração: A produção artística como ato cultural e político de resistência e recuperação face à ameaça de extinção.
- Geografias da Arte Indígena: Análise de diferentes contextos e escalas (do Brasil à Austrália, do Canadá ao Sudeste Asiático).
- Descolonização Metodológica: Revisão de conceitos da antropologia e etnografia em prol de uma deontologia que privilegie a voz do «outro» enquanto sujeito cultural e artístico, e não apenas objeto de estudo.
Equipa Convocarte
Coordenação geral: Fernando Rosa Dias
Co-coordenação (secção francesa): Pascal Krajewski
Coordenação executiva: Bruna Lobo e Jamila Pontes
Coordenação do Dossier temático Arte e Povos Indígenas:
Amilton Pelegrino de Mattos é pesquisador e docente na Licenciatura Indígena da Universidade Federal do Acre, UFAC – Campus Floresta. Doutor em Antropologia pelo PPGSA da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, com tese dedicada aos processos de pesquisa de acadêmicos indígenas junto a suas comunidades. http://lattes.cnpq.br/4467650905915696
Referências utilizadas no «Manifesto para uma chamada de trabalhos: Arte e Povos Indígenas»:
- Chakrabarty, Dipesh (2009). The Climate of History: Four Theses. In: Critical inquiry 35.2: 197-222.
- Clastres, Pierre (2003). A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac & Naify.
- Deleuze, Gilles & Guattari, Felix (1976) O Anti-édipo. Capitalismo e esquizofrenia, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda.
- Ingold, Kim (Ed.) (1996). Key debates in Anthropology. London and New York: Routledge.
- Gell, Alfred. (2018). Arte e agência: uma teoria antropológica. Trad. Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Unu Editora.
- Kopenawa, Davi & Albert, Bruce (2015). A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras.
- Lagrou, E. (2012). Existiria uma arte das sociedades contra o Estado?. Revista De Antropologia, 54(2). https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2011.39645
- Lévi-Strauss, Claude (1976). O pensamento selvagem. São Paulo: CEN.
- Santos, Antônio Bispo dos. (2018). Somos da terra. Piseagrama, Belo Horizonte, n.12, p.44-51. https://piseagrama.org/artigos/somos-da-terra/