uncle c – uma trajetória de vida a registar

11 NOVEMBRO 2025 > 18H30 I GRANDE AUDITÓRIO
Realiza-se no dia 11 de novembro o evento UNCLE C – UMA TRAJETÓRIA DE VIDA A REGISTAR
Conversa: Corsino Furtado e Maíra Zenun.
Moderação: Ana Rita Alves
Esta aula traz para o centro da discussão a ideia do cinema enquanto ferramenta de trabalho coletivo e estratégia de transformação social, através do diálogo entre Corsino Furtado aka UNCLE C, e Maíra Zenun, especialista em cinemas negros, que nos últimos seis meses estabeleceram uma parceria de trabalho e criaram o argumento fílmico intitulado “E QUANDO TUDO ACABAR?”, novo projeto cinematográfico de ambos, que surge a partir do trabalho coletivo desenvolvido pela equipa do projeto FILMASPORA, alocado no I.H.C.
Corsino Furtado é um nome incontornável na documentação do Hip Hop na Europa (Holanda, Portugal, Espanha, França) e em Cabo Verde, tendo construído um arquivo valioso ao dar visibilidade a uma arte sistematicamente marginalizada. Paralelamente, tem se dedicado a filmar o surgimento e o quotidiano de diversas comunidades periféricas da Área Metropolitana de Lisboa, em especial o Bairro de Santa Filomena, onde viveu, registrando momentos de convívio, festas, hortas, brincadeiras de rua e os impactos das demolições ilegais promovidas pela Câmara Municipal da Amadora na história de vida das pessoas. Em colaboração com a realizadora, artista visual e socióloga Maíra Zenun, Corsino tem revisitado este acervo para construir uma cartografia sensível deste espaço urbano – em relação às muitas fronteiras tangíveis e intangíveis que existem -, não com um olhar nostálgico para o passado, mas como uma forma de reinscrever o presente de um território em constante transformação.
Nesta masterclass, que será conduzida pela antropóloga Ana Rita Alves, Corsino Furtado e Maíra Zenun irão partilhar o método que estão criando de organização, curadoria e ativação deste arquivo, somado aos desafios de construir uma narrativa audiovisual [comum], que inclua a população africana, afrodescendente e periférica na identidade cultural de Portugal, a partir do [simples[1]] gesto de arquivar e reativar memórias coletivas.
Metodologia: Corsino Furtado filma como quem anda pela cidade, observando e conversando com tudo o que ele encontra em seus trajetos. Neste caminhar constante, presta atenção em coisas que não estão registradas em nosso imaginário coletivo. Este jeito de filmar é uma maneira de reconhecer o que não está visível. Maíra Zenun, por sua vez, trabalha uma narrativa de montagem cinematográfica disruptiva, que também torna explícito aquilo que é sistematicamente apagado, ao destruir em suas timelines as barreiras temporais e geográficas que determinam o mundo moderno. Nesta aula, o público terá a oportunidade de experimentar a ideia de ambicionar criar novos formatos e estéticas audiovisuais.
[1] É mais complicado excluir a população negra da história de Portugal, apagando o que não convém ao projeto colonial, do que nomear e assumir as violências e os crimes cometidos pela colonização e pelo capitalismo.
Palavras-chave: cinema, periferia, cidades e memória
Notas biográficas
Corsino Furtado, conhecido como Uncle C, é uma referência incontornável no panorama do Hip Hop em Portugal. Em 2007 lançou o DVD “Enciclopédia Hip Hop”, documentário gravado no IADE, que reúne entrevistas e sessões com artistas nacionais e internacionais, distinguindo-se no Festival ViMus com o segundo lugar. Em 2011, lançou o segundo volume desta série, consolidando o seu papel na documentação e divulgação da cultura Hip Hop. Proprietário da loja Black City, na Amadora, alia empreendedorismo à promoção da cultura urbana. Em 2016, participou na produção do vídeo do 43º aniversário da Zulu Nation, em Paris, reforçando o seu impacto internacional. Atualmente, trabalha, em parceria com o produtor Samuel Morais, na produção do Uncleciclopédia Volume 3, entre outros.
Maíra Zenun é multiartista e socióloga, curadora e poeta brasileira em trânsito. Possui: Mestrado em Fotografia Artística (IPCI/2022); Curso Técnico em Audiovisual (Multicompetências/2022); Doutorado em Sociologia do Cinema, com a tese “A CIDADE E O CINEMA NEGRO: o caso FESPACO” (UFG/2019); Mestrado em Sociologia com a dissertação “Os intelectuais na Terra de Vera Cruz: cinema, identidade e modernidade” (UnB/2007); além de algumas formações stricto senso, residências artísticas e cursos livres em multimídia, educação, performance e poesia. Em 2016, participou da criação da Nêga Filmes, coletivo que produz filmes, ensaios fotográficos, performances, livros, ministra cursos e organiza ciclos de cinema. Faz parte do Cineclube da Linha de Sintra. Integra o projeto FILMASPORA/FCT como bolsista. Em sua filmografia, consta a realização de: A CIDADE E O AMOR, “HISTÓRIAS” e “MEMÓRIAS”, para a exposição ÁLBUNS DE FAMÍLIA, o projeto videográfico DIÁRIO DE UM RIO CHAMADO COMBOIO, produzido para o FITEI DIGITAL, entre outros. É autora dos livros ASHANTI ESTÁ EM CASA e ATLÂNTICO, além de ter participado em coletâneas de poesia, possuir ensaios e artigos científicos publicados.
Ana Rita Alves é antropóloga (2008), mestre em Migrações, Inter-Etnicidades e Transnacionalismo e doutora em Direitos Humanos nas Sociedades Contemporâneas (2023). O seu envolvimento com diferentes disciplinas, da antropologia, à teoria crítica da raça, dos estudos urbanos aos estudos sociojurídicos, tem sido fundamental na análise de processos de violência política anti-negra e anti-Roma em Portugal, resultando em inúmeras publicações, entre as quais o livro “Quando Ninguém Podia Ficar: Racismo, Habitação e Território” (Tigre de Papel, 2021).
Ana Rita foi uma das 2020-2021 Black Studies Dissertation Scholar da Universidade da Califórnia Santa Bárbara (EUA), consultora do Conselho da Europa no âmbito do projeto “Inclusive Schools: Making a Difference for Roma Children” (2022) e vários projetos de investigação, entre os quais “AGRRIN – Corpos Geradores: da agressão à insurgência. Contributos para uma pedagogia decolonial” ou “COMBAT – O Combate ao racismo em Portugal: uma análise das políticas públicas e da lei antidiscriminação”. Atualmente é investigadora no projeto (Un)Protect – (Des)Proteção do Estado e Racialização em Portugal: um estudo do impacto do sistema de proteção das crianças e jovens nas mulheres negras e Roma, no Centro de Estudos Sociais e membro da equipa do projeto exploratório “FILMASPORA – Filmes Populares na Diáspora: para uma nova cine-geografia da área metropolitana de Lisboa”.
[1] É mais complicado excluir a população negra da história de Portugal, apagando o que não convém ao projeto colonial, do que nomear e assumir as violências e os crimes cometidos pela colonização e pelo capitalismo.