folded over itself – exposição de Lola Sementsova
9 > 17 ABRIL 2026 | GALERIA BELAS-ARTES
Inaugura no dia 9 de abril, às 18h, na Galeria da Faculdade de Belas-Artes, a exposição Folded Over Itself de Lola Sementsova.
Curadoria: Alexia Alexandropoulopu
Coordenação: Marta Castelo
Horário: 2ª a sábado – 11h00/19h00
Este evento é passível de ser fotografado e filmado e posteriormente divulgado publicamente.
Folded Over Itself
A exposição desenrola-se através de uma sequência de obras que oscilam entre o íntimo e o arquitectónico, o corporal e o estrutural.
Começa com uma mesa. Sobre ela, um vaso de cerâmica branca abre-se ao longo de um corte que parece demasiado deliberado para ser acidental e demasiado exposto para ser puramente decorativo. A ferida é revestida por pequenas pedras brilhantes que captam a luz e a retêm. Ao lado, um pedaço de carne, vermelho e igualmente incrustado, repousa junto de uma faca e de um garfo. A cena parece familiar, quase doméstica, mas algo está fora do lugar. Aquilo que é apresentado como se pudesse ser consumido resiste a essa possibilidade.
Há uma certa atração nisto. O cenário é teatral, até sedutor, mas conduz gradualmente a algo mais desconfortável. Esta tensão evoca o que Georges Bataille descreveu como a proximidade entre o desejo e a perturbação, em que aquilo que nos atrai é também aquilo que nos inquieta.
Mais adiante no espaço, surge uma gaiola vermelha. É grande, próxima da escala do corpo humano, e sente-se em relação ao próprio corpo. A sua estrutura é rígida, repetitiva, quase fria, mas foi envolvida, suavizada, trabalhada à mão. O fio vermelho altera tudo. Confere densidade à estrutura, como se transportasse algo no seu interior, mesmo quando parece vazia. A cor é insistente. Traz associações ao sangue, à vida interior, mas também ao aviso, a algo que talvez não devesse ser tocado.
Há aqui algo de excessivo, algo que não se fixa num único significado. Parece simultaneamente protetor e restritivo. Como sugere Julia Kristeva, são estes os momentos em que as fronteiras começam a esbater-se, em que o interior e o exterior deixam de estar claramente separados.
Noutra sala, um vídeo mostra uma mão a verter areia para dentro de uma gaiola. O gesto repete-se. A areia escapa, acumula-se, desaparece e recomeça. Nada se acumula. Nada se resolve. Com o tempo, a ação torna-se quase hipnótica, não porque mude, mas porque não muda. Permanece na mesma tentativa, repetida vezes sem conta, de reter algo que não pode ser retido.
Ao longo da exposição, os materiais assumem uma presença forte: lã, cerâmica, areia, vidro. São familiares, enraizados, mas utilizados de formas que deslocam o seu significado. O doméstico encontra algo mais visceral. A proteção começa a assemelhar-se à contenção.
Não há aqui uma conclusão clara. As obras permanecem num estado intermédio. Mantêm as coisas juntas, mas não completamente. Deixam algo em aberto, não totalmente exposto, mas também não inteiramente contido.
